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sábado, 18 de dezembro de 2010

Miss Simpatia

by Betha M. Costa




Sorridente, aparência afável. Tão boas palavras que ninguém notava que usava óculos fundo-de-garrafa, aparelho nos dentes tortos e tinha voz fanha algo irritante. Tão meiga, ouvinte atenciosa. Estava sempre sorridente e com um arsenal de boas palavras na boca. Todos a tinham como amigona, daquelas para todos os momentos. Apreciava parecer simpática até com quem antipatizava. Estava na sua natureza cheia de baixa estima ser aos olhos alheios bacana a qualquer custo.


Conheceu o mundo virtual.Ali seu caráter prestativo, bondoso,atencioso e outros “osos” (que não tenho paciência para lembrar agora) se espalhou como um forte cheiro de alfazema entranhando todos quanto partilhavam sua companhia pegajosa. 
A muitos enlevou com as lindas palavras, flautas de encantadores de serpentes, que destinava a seus interlocutores digitais.


Mal entrava num site ficava logo amiga de infância dos donos e administradores, tratando-os com intimidade (que na realidade nem tinha) e chamando a todos os freqüentadores de amigos, como se amizade brotasse de um amontoado de palavras elogiosas na tela solitária de um computador e não o conhecimento e das afinidades.


A vida lhe estava bem com o Universo ao seu redor, embora dentro de si sentisse que algo ia mal... Foi quando num grande portal do qual era freqüentadora assídua lançou o concurso de Miss Simpatia. Na primeira fase foram indicadas cinco candidatas que seriam depois votadas por toda a comunidade.


Com dissimulada surpresa ela viu seu nome entre as eleitas ao título e fez um discurso de agradecimento de arrancar lágrimas até das pedras dos caminhos mais áridos, enquanto as demais candidatas disseram simples e sincero: obrigada!


Quando proclamada vencedora, que grande decepção: ela perdeu por lavada de votos!A massa votou e elegeu Miss Simpatia aquela que pouco procurava badalar os outros e sim a quem todos badalavam e queriam ser amigos por a sentirem verdadeira. E olha que era a mais feia entre as cinco candidatas. Simpatia é uma beleza que as pessoas sentem nos gestos e modo de ser de alguém que a gente percebe de longe ser muito especial.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Lambe-botas

Betha M. Costa


Era um homem de pouco corpo. Desses que uma mulher ao ver na rua nunca virava para uma segunda olhada. Óculos em descompasso com o rosto chupado, roupas mal talhadas com aspecto de velhas e amarrotadas. O dito estilo despojado para qualquer conhecedor de moda...Nas mãos um lenço para tentar segurar a coriza da rinite crônica.


Estava sempre perto de grupos ou pessoas a quem pudesse proferir elogios toscos e principalmente fazer favores. Sim, sentia-se realmente útil e grande!Desprovido de talentos que levassem outrem a admirá-lo e desejar sua amizade e/ou afeto; prendia pela gratidão que julgava conseguir sendo "prestativo".


O mundo e as tais pessoas por ele veneradas como Deuses o desprezavam. Comentavam a boca pequena o quanto era chato, presunçoso e lambe-botas. Todos percebiam seu jeito dissimulado de tentar parecer ser grande, bajulando para que recebesse em troca as mesmas benesses.Usavam-no como um tapete onde se limpa os pés e depois fica jogado ao chão.


Assim passavam os dias para esse ser sem atrativos. Não tinha emprego.Nada a ele estava de acordo com seu potencial.Morava encostado na casa dos tios que o acolheram e criaram como filho após o abandono dos pais.Ambos sumiram no mundo e nunca mais deram notícias.


Um dia, em uma das suas incursões pelas ruas, visualizou dois de seus “amigos” a conversar no bar que freqüentava. Curioso e indiscreto, ele entrou sem que fosse notado, sentou-se de costas em mesa próxima e ficou a escutar a prosa alheia. Seu semblante a cada palavra ouvida desfigurava-se. Era dele que falavam entre gargalhadas!Sua aparência ridícula, sua rinite, seu pouco saber, sua hipocrisia, sua figura pequena por dentro e por fora.


Levantou-se rumo à saída. As imagens de sua existência dançavam nos seus pensamentos em chacota a farsa que ele era. Descobriu-se um nada.Na rua o vai e vem das pessoas misturavam ao trânsito a cena de horror da descoberta de si mesmo.Veio o ônibus em alta velocidade.Atirou-se na frente.Seguiu-se o baque, o amontoado de curiosos, vozes distantes e por fim silêncio e escuro. Repousa na gaveta 187.654 do Cemitério de São Jorge após ser velado somente pelos tios.