sábado, 5 de setembro de 2020

Fotografia P&B

sou saltimbanco
amante e amiga
a dor no flanco
alicerce e viga
beira de barranco
planície que abriga
foto preto & branco
coisa bem antiga...

 

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sobrenome


por Betha Mendonça

Esporas nas ancas dia a dia
Mesa vazia de muita fome
Assinam nome e sobrenome

Ao papel lágrima e sangue
E lástimas, solidões e esperas
Pendem do anelar esquerdo

Horas soltas de sentidos
Avisos à porta da geladeira
Lençóis e carnes desfeitas

Manhãs de sol - tardes de chuvas
Perdidas na insônia das noites
Horas mancas de nunca mais...

Fora à volta ao que não tive
Baila a dança do tempo
E despe-se palavra que cative!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Vestida de Humanidade


por Betha Mendonça

Ah, negra aura da chama humana,
Que me mantém mui distante,
Do que a alma clama à divindade!...

Carrego essa nódoa no peito,
Despeito de todo dom e bem,
Invejo o que os anjos têm.

Sou humanamente divina,
E de dentro dos meus erros,
Sucumbo a Eros e seus apelos.

Cobiço o homem que amo,
Com olhos de Demo o chamo,
E queimo em luxúria e vaidade.

Vestida de pouca castidade,
Com a pureza de uma louca:
Consciência do mal em mim é pouca.


sábado, 12 de janeiro de 2019







 Sou Belém!
by Betha Mendonça

Sou grande parte da paisagem, 
Chuva fina das duas da tarde, 
Quem vê Santa de passagem, 
E reza com fé e pouco alarde. 

Tenho um pouco de marajoara, 
Perfume das ervas mal colhidas, 
Cachos de frutas multicoloridas - 
Ver-O-Peso, açaí ou juçara! 

Trago nas veias água barrenta,
Do Rio Guamá e do mangal, 
Da Escadinha sou vestimenta, 
Da garça o sobrevôo habitual... 

Ah, Santa Maria de Belém! 
Dos morteiros barulhentos do Círio, 
Envolta no manto do eterno bem, 
Nossa Senhora de Nazaré é o “lírio”, 
A melhor crença que o belenense tem! 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Alma de Palhas

por Betha Mendonça

Dessa alma feita de secas palhas,
Sob imenso campo de girassóis,
Com fortes ventanias tu me espalhas,
Em feixes de mim cada vez mais sós.

O vento leva-me partes às calhas,
Onde sou ninho para os rouxinóis,
Dessa alma feita de secas palhas,
Sob um imenso campo de girassóis...

Adiante, tecida em finas malhas,
Sou esteira, paneiro, rede e lençóis,
E tudo que em mim tu trabalhas,
Pode transformar os feixes e nós,
Dessa alma feita de secas palhas...




sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Santo de Avatar

por Betha Mendonça

ah, caminho de dor,
no campo de pisar,
por sobre o falso andor,
dum santo de avatar!

pés que partem daqui,
são crentes sem a fé,
que tateiam pelo chão,
a achar o que nem é...

sai do lábio vazio,
a prece de assunção,
por tal ente sombrio.

fé por milagre vão,
sem devoção nem voz,
benção, nem beija-mão.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Estrela do Norte

Betha Mendonça


Não há passo que eu dê sem que volte ao norte, para essa Belém abraçada pelas águas dos rios, de céu cheio da azul e cinza. Das garças e urubus.

As ilhas a espreitar o movimento das embarcações e aviões sobre a Baia do Guajará. A Praça do Açaí cheia de frutos e toda sorte de gostosuras que vêm de lá.

Dias e noites, sentimentos e sentidos, e, “cantaventos” dos prédios antigos a levar música aos paralelepípedos das ruas estreitas da Cidade Velha.

A Cidade Velha é velha desde que nasci. Ora, aos meus olhos embaçados pela chuva repentina, eu vejo que envelheci mais rápido que ela.

O norte é meu estado, minha estrela de papel, meu canteiro de palavras que vez por outra floresce...


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Outros Haicais

por Betha Mendonça

I

na chuva de junho,
além da curva do rio,
açaizal ao vento.
II
acima das nuvens,
quarto crescente da lua,
no céu  de verão.
III
depois do açaí,
na rede de miriti,
descansa o caboclo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

sábado, 28 de abril de 2018

Sangrar a Vida


por Betha Mendonça

...a vida sangra,
sangue é vida...

...vermelho rutilo
colore o amor,
esquenta o corpo,
rebenta vasos...

...em fuga se põe,
se ferido o coração,
e explode o útero,
na menstruação...

...sem seu aporte:
frieza e lividez,
silencio e morte!...

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Sobre a Felicidade


por Betha Mendonça

Felicidade é uma luz que não pode ser captada pela lente de uma câmera num momento feliz. Seu brilho é tão forte que queima a retina dos invejosos e aparece na foto somente um branco fantasma, sem forma definida.

A felicidade esvai-se por todos os orifícios do corpo. E por ser chama tão forte, quente e brilhante; fica o sol pálido de ciúmes e a lua entristecida por ser o luar tão pequeno perante ela.

É um estar em si e em tudo o que existe. E que não resiste em propagar-se num desejo absurdo, que o Cosmos inteiro possa sentir toda aquela explosão.

Como a criação do Universo ou o Caos, um Big Bang interior, que se propaga em tudo que se toca, cheira, escuta, vê, e, delicia-se em sabores tão diversos, incapazes da caber dentro de versos.

Um arrebatamento, uma música inebriante. Um feitiço que só sabe aproveitar e beber até o último gole, quem não vive com dó de si próprio. Que baila sobre as tristezas, dores e decepções, por que ser feliz é para quem ousa sê-lo. Quem ri de si mesmo, quem minimiza os problemas, por saber que todo mundo os têm.

Felicidade é voar sem asas, correr sem pés, colorir sem tintas, amar a natureza e o natural, sem nada dizer ou mostrar aos outros, por que de longe a gente a percebe...



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sangria

por Betha Mendonça 

corta-me!
sê punhal 
a sangrar- me
dores e amores

seja eu 
sangue e seiva
sulco de rio
a irrigar-te...


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ilha de Gelo


por Betha Mendonça

cruzei o mar dos meus sonhos
nas ondas dos teus cabelos
a afagar-te e afogar-me
n’águas salinas d’amores

naveguei e naufraguei
entre teus indicadores
a apontar-me outro nome

por inveja e desgosto
isolei-me numa ilha
até encobrir-me seu gelo

*Poemas para Ulisses

sábado, 10 de junho de 2017

Poemas de Ninar

por Betha Mendonça

teus versos
antigas canções

na noite
embalam-me o sono

redes
de poemas de en_cantar


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Depois

por Betha Mendonça

depois dela e dele
não há depois

silencio de morte
cala aos ouvidos
contas do rosário
colorem preces ao chão

não há mais ela nem ele
nem velas nos altares
derruídos em oferendas
e quebras de promessas

não há suplica nem assunção
nem mais bate um coração

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Passos

by Betha M. Costa

ah, passos...
promesseiros sem fé 
posseiros da planta do pé

presos ao cimento das horas 
nem o todo nem as sobras 

do que nunca foi e nem é...



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Divagações de uma Insana

by Betha Mendonça

Ela não mora mais aqui nesses olhos de jabuticabas maduras devoradas pelo tempo. Nas plumagens de asas ressecadas e ralas, nas gulas controladas, no rosto da lua cheia a sorrir. Não, ela não mora mais aqui!

Adoeceu de doença da cegueira, ao confiar os passos ao parceiro de uma dança feita de nuvem. Teve a voz tragada pelo deserto do silencio, a dizimar pouco a pouco as searas frutíferas e ruidosas do seu ser.

Não, não! Ela encolheu feito uma reta, que de tão encolhida virou um ponto, não se sabe se a seguir ou final.

E por não mais morar aqui, ela cortou as mãos para não acenar mais um adeus.



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Ainda olho...


by Betha M. costa

vejo-te a pena esmurrar.
desejo, febre, mentira...
soberba, orgulho, ira...
um louco para si a berrar:

sou eu, cá e lá!
fala estátua de sal!
flui fonte do mal!
tenho sede de beber de ti!

largar o palco com tudo:
fábulas e reinado sem rei.
olhar que assiste mudo,
à opera dum sentir sem lei.

e a ferir as retinas,
esses olhos de boiuna,
ainda te (per)seguem.

* de Poemas para Ulisses

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Smartphone












by Betha M. Costa

Cheguei na loja. O funcionário atrás do balcão estava ao smartphone. Olhos hipnotizados e dedos tão rápidos  no teclado quanto um virtuose de piano. Cumprimentei:
- Boa tarde!
- Boa tarde! O que a senhora deseja?
- Ah! Eu aguardo o senhor desocupar aí do celular!
- Não! Pode falar! Não tem problema!
- Então... Eu quero ver modelos de copos para personalizar e distribuir de brinde na colação do meu filho...
- Estão todos ali naquelas prateleiras a direita! Apontou o homem com o queixo, sem tirar olhos e dedos do smarth. Não crendo no que acontecia, eu prossegui para  saber até onde ia aquele personagem inacreditável:
- Ei! Os copos são muito legais! Têm cores e formatos diversos...
- Ééééé... Respondeu a falar para dentro de si mesmo o sujeito, sem mexer um músculo.
- Olha! Até cheiros diferentes!
- Ééééé...
Eu fiquei zangada com o despreparo do camarada que demonstrava nem ouvir o que eu dizia, e, não dar a menor bola para minha demanda. Resolvi apelar para testar:
- Tem uns com cheiro de xixi de neném, outros cor de diarreia, outros até lembram o perfume de cravos de defuntos e mofo, né?
- Ééééé... Assentiu o patetão. Boquiaberta eu me segurei e prossegui:
- Quero cem litros dessas rosas vermelhas do tipo conto de fadas! Mas, com cheiro de dentes podres... Pode ser?
- Anhan! Pode! Pode! Anote tudo nesse bloco aqui no balcão!
- Ih! Esqueci de trazer o logo. Posso mandar por telepatia para o senhor?
- Poooode! E desgrudando uma dos mãos do celu, a outra e os olhos ainda lá; ele me passou um cartãozinho com os dados da empresa.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Do mar ao rio











by Betha M. Costa

não sobra mais amanhã, 
no mar hoje feito rio,
aonde canta a cunhã,
onde morreu o desvario...

nas noites e dias de frio,
foi santa e deusa pagã.
da vela, a cera e o pavio,
a iluminar seu mor fã.

de diva cruel sem elã,
lança-se em fé e delírio, 
ao alienista e seu divã.

das tintas na pele ao afã,
ao despertar pela manhã,
todo um mar é agora rio!

Imagem do googele