quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Outros Haicais

por Betha Mendonça

I

na chuva de junho,
além da curva do rio,
açaizal ao vento.
II
acima das nuvens,
quarto crescente da lua,
no céu  de verão.
III
depois do açaí,
na rede de miriti,
descansa o caboclo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

sábado, 28 de abril de 2018

Sangrar a Vida


por Betha Mendonça

...a vida sangra,
sangue é vida...

...vermelho rutilo
colore o amor,
esquenta o corpo,
rebenta vasos...

...em fuga se põe,
se ferido o coração,
e explode o útero,
na menstruação...

...sem seu aporte:
frieza e lividez,
silencio e morte!...

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Sobre a Felicidade


por Betha Mendonça

Felicidade é uma luz que não pode ser captada pela lente de uma câmera num momento feliz. Seu brilho é tão forte que queima a retina dos invejosos e aparece na foto somente um branco fantasma, sem forma definida.

A felicidade esvai-se por todos os orifícios do corpo. E por ser chama tão forte, quente e brilhante; fica o sol pálido de ciúmes e a lua entristecida por ser o luar tão pequeno perante ela.

É um estar em si e em tudo o que existe. E que não resiste em propagar-se num desejo absurdo, que o Cosmos inteiro possa sentir toda aquela explosão.

Como a criação do Universo ou o Caos, um Big Bang interior, que se propaga em tudo que se toca, cheira, escuta, vê, e, delicia-se em sabores tão diversos, incapazes da caber dentro de versos.

Um arrebatamento, uma música inebriante. Um feitiço que só sabe aproveitar e beber até o último gole, quem não vive com dó de si próprio. Que baila sobre as tristezas, dores e decepções, por que ser feliz é para quem ousa sê-lo. Quem ri de si mesmo, quem minimiza os problemas, por saber que todo mundo os têm.

Felicidade é voar sem asas, correr sem pés, colorir sem tintas, amar a natureza e o natural, sem nada dizer ou mostrar aos outros, por que de longe a gente a percebe...



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sangria

por Betha Mendonça 

corta-me!
sê punhal 
a sangrar- me
dores e amores

seja eu 
sangue e seiva
sulco de rio
a irrigar-te...


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ilha de Gelo


por Betha Mendonça

cruzei o mar dos meus sonhos
nas ondas dos teus cabelos
a afagar-te e afogar-me
n’águas salinas d’amores

naveguei e naufraguei
entre teus indicadores
a apontar-me outro nome

por inveja e desgosto
isolei-me numa ilha
até encobrir-me seu gelo

*Poemas para Ulisses

sábado, 10 de junho de 2017

Poemas de Ninar

por Betha Mendonça

teus versos
antigas canções

na noite
embalam-me o sono

redes
de poemas de en_cantar


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Depois

por Betha Mendonça

depois dela e dele
não há depois

silencio de morte
cala aos ouvidos
contas do rosário
colorem preces ao chão

não há mais ela nem ele
nem velas nos altares
derruídos em oferendas
e quebras de promessas

não há suplica nem assunção
nem mais bate um coração

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Passos

by Betha M. Costa

ah, passos...
promesseiros sem fé 
posseiros da planta do pé

presos ao cimento das horas 
nem o todo nem as sobras 

do que nunca foi e nem é...



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Divagações de uma Insana

by Betha Mendonça

Ela não mora mais aqui nesses olhos de jabuticabas maduras devoradas pelo tempo. Nas plumagens de asas ressecadas e ralas, nas gulas controladas, no rosto da lua cheia a sorrir. Não, ela não mora mais aqui!

Adoeceu de doença da cegueira, ao confiar os passos ao parceiro de uma dança feita de nuvem. Teve a voz tragada pelo deserto do silencio, a dizimar pouco a pouco as searas frutíferas e ruidosas do seu ser.

Não, não! Ela encolheu feito uma reta, que de tão encolhida virou um ponto, não se sabe se a seguir ou final.

E por não mais morar aqui, ela cortou as mãos para não acenar mais um adeus.