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sábado, 6 de novembro de 2010

Assalto a Boca Armada

by Betha M. Costa


Andava estafada da pesada rotina. Tirei aquela quarta-feira para mim.Faltei ao trabalho, fui ao Centro Estético, fiz sauna, relaxante massagem.Tive os cabelos pintados, cortados, lavados e feito escova.Sai leve.Quase a flutuar na calçada de tão calma e bem disposta.


Atravessei a rua para dar uma volta na praça em frente. Quem saber tomar uma água de coco geladinha... Foi quando dei com o senhor branco, bem apessoado, bem vestido ao meu lado. Senti algo cutucando minhas costelas à direita, percebi ser um revólver e ouvi:


- A madama me acompanha que é um assalto!Enquanto o homem segurava meu braço como se fôssemos velhos conhecidos... De dentro de um sonho respondi:


- Está bem!E continuei caminhando com cara de paisagem.


- A madama me dá a bolsa e fica quieta!Eu vou embora e fica tudo bem...


- O senhor andando na praça com essa enorme bolsa cor-de-rosa? Indaguei.O moço pensou por alguns segundos:


- A madama tem razão! Vai que um engraçadinho acha que sou “fruta” e “tira” comigo?Vou ter que matar o sujeito... E só mato na extrema necessidade!


- Pois é... Concordei roxa de medo.


- Vamos sentar naquele banco. A madama abre a bolsa e me dá as coisas que eu quiser!
Sentamos no banco abri a bolsa... O pobre homem ficou confuso com o mundo de coisas que tinha dentro. Olhou-me nos olhos e falou:


- A senhora pode achar sua carteira?


Revirei os pertences. Peguei a carteira.


- Passe pra mim todo dinheiro que tiver, por favor!


- Claro!Respondi abrindo a carteira.


- São seus filhos nessa foto? Gelei e me arrependi de guardar foto dos meus tesouros ali.


- São sim!São meus filhos!Falei a contragosto.


Foi então que o insólito ficou mais insólito:


- Belos garotos!Eu tenho um casal! O sujeito abriu a própria carteira e me mostrou a fotografia dos seus adolescentes.


- Nossa!Eles são lindos!Gaguejei.


- É pra dar do melhor pra eles que trabalho tanto! Não que eu goste de ficar assaltando as pessoas por aí...Estudam em colégio particular... O plano de saúde é caro...


- Eu sei... Também tenho muitos gastos com os meus filhos!Retruquei sem saber onde ia parar aquela conversa. Meu interlocutor fitou-me sorridente e confessou:


- Sabe madama me simpatizei com a vossa pessoa!


Eu nem creio, mas falei:


- Eu também simpatizei com o senhor.


- A madama precisa de todas essas coisas que estão na vossa bolsa?


- Sim!Tudo coisa de extrema necessidade para mim!


Huuuumm... Resmungou, coçou a cabeça e resolveu:


- Sabe, a madama é gente boa!Não vou levar nada da senhora, não!


- Obrigada!O senhor também é bem bacana!


Ele estendeu a mão e apertou a minha como se tivéssemos nos conhecido numa reunião social e disse:


- Prazer, Madama! Felicidades pra senhora e vossa família!


- Prazer!Tudo de bom para o senhor e sua família!... 


E o assaltante foi embora sem olhar para trás, deixando-me sentada atônita naquele banco de praça!


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Violência Nossa de Cada Dia

by Betha M. Costa




Hoje mais uma vez o meu filho foi tomado de assalto na rua onde moramos. Outro adolescente em uma bicicleta  munido de um revolver - sabe-se lá o calibre que não entendemos de armas - roubou seu celular. Já ocorreu antes com um outro celular e algumas vezes até com o dinheiro do ônibus. Meu filho foi assaltado e eu ainda dei graças a Deus por ele não ter levado um tiro que lhe deixasse uma seqüela ou lhe ceifasse a vida. Já fui assaltada, meus sobrinhos, minha mãe, meus filhos, meu marido, meus amigos e os amigos de meus amigos.Que país é esse onde a gente está exposta a ser roubada, ferida por arma branca ou de fogo, estuprada, espancada ou morta até dentro da nossa própria casa?


Ouço todos os dias nos meios de comunicação, propagados em alto e bom som por sociólogos, OGNs, governos e o escambau:
- A responsabilidade pela violência é de todos nós!


Querem saber? Eu não me sinto responsável, não!Estou cheia de jogarem nas minhas costas os erros alheios! Sou uma cidadã pacata, trabalho, pago meus impostos (exorbitantes), ajudo financeiramente uma creche. Fico perto de todas as pessoas que eu posso socorrer com uma palavra, um gesto, um medicamento, uma atitude positiva... Faço a minha parte. Procuro praticar o bem coletivo. Nem um papel de bombom jogo na rua! Gasto uma grana de escola e plano de saúde (que deveriam ser gratuitos e de qualidade) para meus filhos e para mim...


Não! Eu não roubo o dinheiro da merenda escolar, da pavimentação de ruas e estradas, dos medicamentos, da saúde pública, do saneamento básico para as famílias das periferias e às vezes do centro das cidades. Não permito que entrem e nem trafico armas contrabandeadas e drogas pelas fronteiras, para que nós e nossos filhos sejamos vítimas delas. Não faço acordos e conchavos políticos visando interesses pessoais, sem me importar com as pessoas que votaram em mim, na confiança de que eu trabalharia para melhorar suas condições de vida.


Não fui eu quem não deu oportunidade de educação e uma existência mais digna para milhões de crianças e jovens. Não sou eu o jovem que mesmo tendo todas as oportunidades escolheu ser marginal... Por isso não vou admitir mais que me responsabilizem pelo que outros fazem ou deixam de fazer!


Não sou responsável em aparelhar com recursos humanos, inteligência, técnica, instrumentos e carros as delegacias para segurança pública.Tampouco tenho gerência sobre as penitenciárias. Não cuido nem desvio o dinheiro que deveria ser usado para esse fim.


Somos milhões de homens e mulheres. Brasileiros. Todos sitiados pelo crime, a rezar para que a violência nossa de cada dia não leve a nós, um dos nossos familiares, amigos ou conhecidos. Estamos à mercê da bandidagem e não temos a quem recorrer. Se a vida de um de nós for tirada, SE o criminoso for preso ou condenado, é bem fácil que ele fuja e continue impune no crime. Depois que a morte vem, de nada serve a grita de OGNs, Direitos Humanos, a “Solidariedade Governamental” e de outras entidades: você está morto e acabado. Logo será apenas mais um número de estatística, caro leitor!