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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Divagações de uma Insana

by Betha Mendonça

Ela não mora mais aqui nesses olhos de jabuticabas maduras devoradas pelo tempo. Nas plumagens de asas ressecadas e ralas, nas gulas controladas, no rosto da lua cheia a sorrir. Não, ela não mora mais aqui!

Adoeceu de doença da cegueira, ao confiar os passos ao parceiro de uma dança feita de nuvem. Teve a voz tragada pelo deserto do silencio, a dizimar pouco a pouco as searas frutíferas e ruidosas do seu ser.

Não, não! Ela encolheu feito uma reta, que de tão encolhida virou um ponto, não se sabe se a seguir ou final.

E por não mais morar aqui, ela cortou as mãos para não acenar mais um adeus.



domingo, 5 de maio de 2013

Carta de Despedida Número 06








by Betha Mendonça

Belém, 21 de junho de 2010.

Despeço-me agora da mágoa que destrói os relacionamentos interpessoais, e, do desejo de retrucar com ardido bofete na cara cada desgosto que a vida e/ou as pessoas me dão.

Adeus à mesquinhez do ódio que tinge de vermelho os olhos e cega o ser humano ao que realmente importa na existência tão pequena dessa esfera espiritual! Que aqueles que me ofendem se apaguem na minha memória como velas que derretem sobre as lápides frias de tudo o que é sem valor!

Aceno com branco-paz aos que dizem de mim e contra mim todo tipo de coisa negativa, para que eu não lhes absorva os maus sentimentos e me torne tão cruel quanto eles.

Adeus à raiva daqueles que pisaram com força e esmagaram sob seus pés um a um dos meus mais lindos sonhos e nobres sentimentos.  Sejam eles apenas poeiras que o vento do tempo levou para tão longe de mim que nem lhes recorde os semblantes.

Chega de remoer acontecimentos, atitudes e palavras! Essas coisas que ferem por dentro o peito tais flechadas que fogos e torturam a mente da gente pela ansiedade de ter permitido que assim acontecesse...

Apartem-se os desgostos aos quais fui submetida por mim mesma ou por outrem! Que eu seja como sol que - mesmo encoberto pelas nuvens coloridas no firmamento - passa altivo sobre mares de calmarias e tempestades, e, festivo volta a brilhar e esquentar a Terra a cada novo dia até que finde seu tempo...

Adeus...

B.




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Carta de Despedida Número 01








by Betha Mendonça

Belém, 14 de novembro de 2008.

Sem lágrimas nos olhos. Sem ser piegas. Sem dó nem piedade eu me despeço de tudo que causa mal a mim e do mal que causo aos outros.

Lanço ao fogo do esquecimento as palavras torpes que pensei, proferi, li, escrevi e ouvi. Todos os sentimentos negativos que cerceiam minha evolução como ser humano.

Renego e enterro ao silêncio das covas profundas toda a dor. Com elas as ofensas e incompreensões praticadas por mim e pelos que de uma forma ou outra fazem parte de meu convívio.

Adeus aqueles que cri serem amigos! Que permiti privarem da minha confiança e que, com o correr das estações, se mostraram menores do que eu.

Adeus aqueles que perante a grandeza espiritual e intelectual, não passo de mera poeira vermelha das estradas, barro para ser pisado por passos maiores e mais importantes que eu.

Despeço-me das injúrias e escárnios recebidos e daqueles a quem consciente ou inconscientemente injuriei ou escarneci em revide... Tudo causa da minha espiritualidade pouco elevada!

Entre tantas despedidas, eu bato com as mãos muitos acenos e afirmo: não terei saudades do que deixo para trás!... E vôo para bem longe com um par de asas que roubei de um anjo caído.

B.