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sábado, 12 de janeiro de 2019







 Sou Belém!
by Betha Mendonça

Sou grande parte da paisagem, 
Chuva fina das duas da tarde, 
Quem vê Santa de passagem, 
E reza com fé e pouco alarde. 

Tenho um pouco de marajoara, 
Perfume das ervas mal colhidas, 
Cachos de frutas multicoloridas - 
Ver-O-Peso, açaí ou juçara! 

Trago nas veias água barrenta,
Do Rio Guamá e do mangal, 
Da Escadinha sou vestimenta, 
Da garça o sobrevôo habitual... 

Ah, Santa Maria de Belém! 
Dos morteiros barulhentos do Círio, 
Envolta no manto do eterno bem, 
Nossa Senhora de Nazaré é o “lírio”, 
A melhor crença que o belenense tem! 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Amazônia em Mim


by Betha Mendonça

Sou a vitória-régia em flor,
A Iara perdida no igarapé,
N’água fria e de escura cor,
Sou pé do traiçoeiro mururé.

Tenho os olhos da Boiúna,
A infantilidade do boto rosa,
Sou fauna e flora em fortuna,
Descrita em verso e prosa.

Sou parte esquecida da lenda,
Os cheiros e ritmos da selva,
O índio que chora sua prenda,
Doente no catre sobre a relva.

No sabor exótico do cupuaçu,
No riso inocente do curumim,
Ou no canto triste do uirapuru,
Há Amazônia dentro de mim...



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Rios das Minhas Saudades

by Betha M. Costa

Percorrem água doce em serpentinas,
Os meus olhos em negros corrupios,
Nas chuvas torrenciais e repentinas,
Que transbordam pelos canais e rios.

Acima das águas do Rio Guamá,
O sobrevôo da garça e do urubu,
O abraço da Baía do Guajará,
Banha as ilhotas além do Combú.

A Amazônia sorri e chora por mim,
Na luz dos barcos que deixam o cais,
No canto inocente do curumim...
Na velha Belém que não volta mais...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Uirapuru e Iara

by Betha M. Costa

Uirapuru e iara juntos
Cantam e se encantam:
Ele na copa das árvores,
Ela na vitória-régia do rio.

Nunca hão de se encontrar...
Ela sem ar fora do rio,
Ele congelado pelo frio.
Nunca hão de se encontrar!

Lua espia atrás dos açaizeiros,
Pássaros quietos nos ninhos,
Uirapuru seduzido pela Iara,
Teme o encanto de seu canto.

Pobre Uirapuru,
Pobre Iara:
Nunca hão de se encontrar!

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Iara - sereia amazônica que encanta os homens com seu canto levando-os a morte ou loucura.

Uirapuru - guerreiro que foi transformado em pássaro de canto belo e triste por Tupã (Deus) para atrair sua amada.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Filha da Amazônia

by Betha M. Costa

Nasci d’água marajoara,
Moreno-jambo na cor,
Filha do luar paroara,
Com a vitória-régia em flor.

Saias estampadas coloridas,
Danço o sensual carimbó,
Nas cadências já conhecidas,
Que aprendi com minha avó.

Como maniçoba e tapioca,
Comidas típicas gostosas:
Viva a sagrada mandioca,
Das raízes às folhas venenosas!

Samaumeira do meu bem,
De tucupi e açaí sou regada,
Nos rios que cortam Belém,
Vôo junto às passaradas.

Nasci d’água marajoara,
Moreno-jambo na cor,
Filha do luar paroara,
Com vitória-régia a flor!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Vitória-Régia

by Betha Mendonça

Vitória-régia de água escura
Em flor despe-se para mim
Ao seu perfume embriago
Vôo em asas - querubim

Sereia-folha dos rios insanos
Descanso em verde cetim
Ao meu cantar melancólico
Encanta-se o boto por mim

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Criatura – Final

by Betha M. Costa


Sem contato com outros seres humanos *Ailã foi criado em completo isolamento. Aos cinco anos de idade já demonstrava desprezo pela vida: matava pintinhos da criação da mãe com requintes de perversidade. Primeiro furava-lhes os olhos com gravetos.Repetia o ritual pelos corpos.Sugava o sangue e depois de lhes torcer os pescoços, pendurava os cadáveres num arbusto como ornamentos de uma sombria árvore de natal.


Quanto mais crescia mais aumentava sua maldade e insensibilidade. Passou a incendiar roçados, torturar, matar ou aleijar animais. Era capaz perseguir sua presa por quilômetros nos arredores ou na mata.Jamais perdia o rumo, por que era parte daquela terra bela e selvagem.


Aos quinze anos, corpo coberto de pelos, um metro e oitenta centímetros de altura e olhar que causava pânico até nos pais; além de beber o sangue começou a comer carne crua.A vizinhança falava de um “bicho” que atacava seus roçados e suas criações, aleijava e matava seus animais. O medo alastrou-se. As crianças ficavam trancadas nas casas.Os adultos iam para as lidas armados e atentos a quaisquer alterações.


Sua mãe Dona Flora era devota de São Jorge. Na madrugada do dia 23 de abril, dia do santo, o Guerreiro apareceu para ela. Levou-a pela até a beira de um rio de areias finas e brancas. No local havia um imenso crucifixo e ardia uma fogueira que tinha chamas com as cores do arco-íris.São Jorge perguntou a mulher se ela acreditava em Jesus como seu Salvador e o Bem Supremo.Respondeu que sim.


De repente surgiu Ailã gritando todo tipo de blasfêmias e imundícies enquanto vomitava animais asquerosos. O Santo entregou a Flora uma espada parecida um crucifixo e ordenou que fosse atirada no peito da “Coisa”.A mãe retrucou que não podia fazer aquilo a quem havia dado a vida.Foi advertida que exatamente por isso só ela lhe libertaria.Tomada de sobrenatural coragem ela lançou a espada bem no meio do peito da criatura.Imediatamente dezenas de sombras disformes, aos gritos abandonaram o corpo no chão que passou por inacreditáveis transformações até dar feições a uma bela jovem morena, a verdadeira filha de Flora. Fora oferecida ao Demo por seu marido Gumercindo durante a gravidez.


*Ailã - na língua indígena Macuxi significa entidade mític

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Criatura – Parte I

by Betha M. Costa


Vilarejo cercado por mata fechada. Copas de verdes árvores amazônicas faziam das manhãs noites sem fim. Era uma abafada tarde de julho, ano que ninguém lembra (ou prefere não lembrar), quando nasceu a Coisa. Vista somente pela parteira Dona Moça, Seu Gumercindo (pai) e pela mãe Dona Flora. Emitia um som gutural tão assustador quanto o horror do trio que olhava aquele ser disforme.De imediato fizeram pacto de nunca comentarem sobre aquela triste existência.


Dona Moça voltou aos seus afazeres. Os pais ficaram no desespero do quê fazer com a mistura de seres diante de si, que nem sexo tinha definido. A mãe temente a Deus decidiu por não matar ou abandonar na mata. Na falta de um nome que lhe pudessem atribuir, chamaram do primeiro que veio a mente: *Ailã. Dona flora logo avisou que não iria amamentar “aquilo” e o pai para tentar acalmar o quê deveria ser um choro de bebê foi ordenhar a vaca.


O recém-nascido não aceitou nenhum tipo de leite que lhe foi oferecido: vaca, cabra e até o materno que Dona Flora retirou espremendo os peitos. Nada conseguia alimentá-lo e quanto mais faminto mais alto gritava.


Certa hora Seu Gumercindo tratava com o facão uma galinha caipira. Pretendia fazer uma canja para alimentar à parturiente. Atordoado com o “choro" incessante de Ailã, quase decepa o indicador esquerdo. Seu sangue misturou-se ao da ave enquanto ele dizia palavrões. A mulher chamou em desespero suplicando que “a Coisa” fosse levada para fora da casa. O pobre homem enrolou o dedo ferido em um trapo e correu para pegar a criaturinha. O sangue não parava de jorrar do dedo ferido quando sentiu que o bebê o sugava com sofreguidão e parecia deliciar-se com o rútilo líquido. Descobriram como alimentá-lo: o pai matava aves e outros animais, retirava o sangue dava-lhe para beber e assim ele cresceu.


*Ailã - na língua indígena Macuxi significa entidade mítica.