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domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sobrenome


por Betha Mendonça

Esporas nas ancas dia a dia
Mesa vazia de muita fome
Assinam nome e sobrenome

Ao papel lágrima e sangue
E lástimas, solidões e esperas
Pendem do anelar esquerdo

Horas soltas de sentidos
Avisos à porta da geladeira
Lençóis e carnes desfeitas

Manhãs de sol - tardes de chuvas
Perdidas na insônia das noites
Horas mancas de nunca mais...

Fora à volta ao que não tive
Baila a dança do tempo
E despe-se palavra que cative!

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Depois

por Betha Mendonça

depois dela e dele
não há depois

silencio de morte
cala aos ouvidos
contas do rosário
colorem preces ao chão

não há mais ela nem ele
nem velas nos altares
derruídos em oferendas
e quebras de promessas

não há suplica nem assunção
nem mais bate um coração

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Atrás do Espelho












by Betha M. Costa

Muitas vezes eu adormeci em calma sobre um rio de lágrimas. Despertei com as mãos envoltas nas dores mais antigas e passei o dia com o olhar coberto de risos.

Por vezes ocultei a melancolia atrás do espelho do banheiro. Prendi ao guarda-roupa perfumado com cheiro do Pará uma ou duas esperanças ressecadas.

As tristezas cerzidas por grosserias, desrespeitos e achincalhes gratuitos, criaram teias de gelo nas minhas cordas vocais. Se pagas, elas me fariam mulher rica em adjetivos lançados ao rosto no propósito de machucar o âmago...

O silêncio tornou-se a minha resposta, pois perdi a noção do diálogo. Não tenho gosto em degelar palavras a quem não tem o interesse de bebê-las.

Muda. Comunico-me somente através do olhar com quem seja capaz e/ou sinta vontade de decifrá-lo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Apanhador de Sonhos












by Betha M. Costa

Ouço o som do rio barrento,
Raspar as pedras rugosas,
Fiar de espumas a praia,
E, a toada da chuva fina,
A escorrer nas calhas e folhas.

O cântico secreto das árvores,
Baila e gira-me dentro e fora,
Música soprada pelas frestas,
De cada canto mágico da casa,
Que tem o voo em suas asas...

A insânia dos sinos dos ventos,
Sopra multitons em sinfonias,
Até que o apanhador de sonhos,
Prenda aos fios as sensações,
Em guisas de olhos de lembrar...

*Desconheço autoria da imagem (Google)

domingo, 17 de agosto de 2014

Voltas do Vento








by Betha M. Costa

não há volta na curva que o vento faz
e o fogo apaga e o sonho acorda
e o ontem não pode ser hoje jamais

depois que na faca é cortada a corda
tudo solta, pende e o tempo desfaz
e no ar disperso em pó...nunca mais...

*Imagem Google

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Lascívia












by Betha M. Costa

redes de dedos feitos de toques
em calores de febres convulsas
às caricias, ondas de choques
abrem-se os botões das blusas

deslizam coxas, mãos e pernas
põem a nu os mantos de esconder
e nas troças e danças internas
um ser dentro doutro a se perder


*Imagem Google

sábado, 9 de agosto de 2014

Poema e Poesia










by Betha M. Costa

Acabou a poesia que me sustinha a fé nos dias, e corria bicho solto pelas campinas do meu querer. Aquele que rolava em novelos de prazer pelas ladeiras dos sentimentos, bolhas d’água e sabão, delicadezas a explodirem em festas no ar.

Triste ver um poema espalhado pela casa, mãos perdidas dos dedos pelos cômodos, sem poder na pena e tinta tomar vida.

E um grito canta da sala à varanda, uma música cai do piano, uma lágrima alimenta o aquário e a alegria sai pela porta da frente. Na soleira um sorriso sem viço sobre o tapete de boas vindas.

Tudo por causa daquele nome retido na boca, que feito um livro guardou as palavras, e, levou consigo os meus versos. Sem ele não existe poesia que valha um poema.

*Imagem do Google

domingo, 18 de maio de 2014

Canto da Poeta Triste










by Betha Mendonça

Eu que sou bote colorido
perdido entre as quimeras
canto-te:

- Os pássaros dormem no silêncio
dos amores que bateram asas...

Eu que choro com a chuva
na melancolia das manhãs
canto-te:

- A mesma maga que lê as linhas
nas palmas da tua mão te ensina.

Eu, tal Atlas, mundo nas costas
espatifado em mil pedaços
canto-te:

- Nada há para tocar no firmamento
além do que um poema tem a dizer.

*Imagem @betha

Meu destino é partir... E Chegar!












by Betha Mendonça

Vivo ao sopro dos tépidos ventos,
Que mudam os cursos das marés,
E as direções das pipas de cores,
Dos retalhos destes muitos sonhos.

Não fico por ser do meu destino,
Partir e estar sempre a chegar!

Levo-te comigo por cada canto,
Das ilusões que vou despejando,
Passo a passo desse caminho frio,
E tão triste e árido que orno de ti.

Julgas-me, condenas-me e punes-me:
Não posso defender-me por ser eu!

Porque minha existência inquieta,
Já me condena além dos teus olhos,
Que me descreem e exigem provas,
De quanto te quero e se somos reais. 

*Imagem Google

sábado, 10 de maio de 2014

Devoção









by Betha Mendonça

Se me viro a outros lados e faço-te virar,
Preciso logo revirar e voltar a olhar-te.

Sem saber de ti e das tuas letras,
Tudo me é tão negro nanquim,
Que dependo de tua mão hábil e ágil,
A tingir-me guaches de cores diversas.

Se me viro a outros lados e faço-te virar,
Preciso logo revirar e voltar a olhar-te.

Sou devota a seguir-te como procissão,
A dizer versículos de fé pagã em tua soleira,
Hinos e louvores aos teus Poemas-Deuses,
D’afagar, atrair e iludir-me o coração.

Se dentro de ti, em destino não escolhido,
Nunca estarei longe: eu estarei aqui.

*Imagem tumblr

domingo, 4 de maio de 2014

Gaiolas das Borboletas











by Betha Mendonça

Ulisses, desta faca que te corta atinge-me também o fio,
E escorre-me dentro um fel ardido que me divide em muitas,
Tantas e sem vestes nem sossego, que aqui no exílio é-me frio.

Por que não me deixas e silencia-te e olhas ao teu lado?
Vai para quem contigo possa caminhar junto e aliciar-te,
E faça-te tudo àquilo que te encanta e é do teu agrado!

Não te aprisiones nessa gaiola cinza como as borboletas!
Elas vivem e morrem de beber em mares de palavras salgadas,
Como se fossem a parte mais doce das Escrituras Sagradas.

*Imagem Google

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Flor Aérea









Betha Mendonça

Abro bem minhas pétalas 
Por que preciso de ar fresco 
Disperso sob o céu anil 
Livre de cercas e redomas 

Seja manhã ou noite 
Sou Flor da Melancolia 
Perfume agridoce 
Raízes suspensas do chão 

Se uma hora eu me distrair 
E alimentar-me do barro 
De suas mãos protetoras 
Serei esmagada por seus dedos.

*Imagem Google

Jardim Secreto










by Betha Mendonça

Fico sentada aqui na varanda
Olhos de ver a grama crescer
Parada diante da vida que anda
Lágrimas regam o entardecer

A noite chega nublada e branda
Ventos e chuvas de bem-querer
À terra que mui molhada manda
Ao Jardim Secreto florescer

As folhas e galhos em demanda
Pedem às flores tudo esquecer
E unidas se abracem em guirlanda
Para perfumar o anoitecer...

*Imagem Google


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O Mar










Desconheço Autoria

O mar
não confiou em mim
por que sou da terra

O mar
não confiou em mim
por que não sei nadar

O mar
não confiou em mim
por que lhe disse
que amar afoga

O mar
confiou em mim
quando lhe gritei
que amar também afaga...

*Imagem Google

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Não é Nada









by Betha Mendonça

Não é nada, não é nada. Nada aqui é...
Só uma seara perdida n’autocombustão,
Um tiro mal feito desferido no próprio pé,
Novelo que se puxa o fio a tecer ilusão.

Para acabar com isso é preciso atitude:
Passos de ir sem voltar, nem olhar atrás,
Sepultar sob a lápide aquilo que ilude,
Viver o fel ou mel do real na santa paz.

Da cena do crime apagar todas as digitais,
Junto com grande safra de pensamentos,
E, sentimentos tão sem sentidos e banais...

*Imagem tumblr

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ritos e Mitos









by Betha Mendonça

Não tenhas dó deste reino sem rei nem rainha,
E nem do súdito cuja fé apaga-se ao sopro da vela,
Nem do nobre guerreiro com a espada na bainha,
Que não pode defender do dragão a doce donzela.

Não louves nem lances incensos sobre Deusas,
Pois muitas só seduzem homens em atos e fé,
Com rostos de Vestais e almas de Medusas,
Cada uma por dentro e fora é somente o quê é.

Erros e crenças, paz e desavenças são humanos.
Como o fogo queima, a água molha e vento areja,
Limpa ou deixa a mácula do pecado que te beija!

Sê mar sem temer bater na pedra doutro lugar,
Nem fazer parte do rio onde navega Caronte,
Não vale blasfemar, sem ter a moeda para pagar.

*Imagem Google

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Volúpia!










by Betha Mendonça

Volúpia, violinos ao luar!
Reinam ao mesmo lugar,
Suavidade da flauta doce,
E o som cortante da foice.

Volúpia, profana melodia!
O fole da gaita perdida,
Convida a um novo pecado,
O corpo entende o recado.

Volúpia, antagonismo n’alma!
A harpa toca serena e calma,
Os celestiais sons cristãos,
Os tambores gritam os pagãos.

Volúpia, desejo e temor!
Ciranda de rosas e dor.
A música aqui passou,
E foi tudo o quê restou...


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Derrubar Ilusões









by Betha Mendonça

aqui é a morada onde minh’alma,
despida de corpo, nada é além de si.

não há no destino nem calor ou cor,
capaz de repintar o que já não sou,
nem as tuas mãos a bordar em linhas,
versos livres a fazer-me em traço nu.

tal avião de papel que exposto ao calor,
vira cinzas, fuligem nos lábios abertos,
dos beijos não trocados ou divididos,
bebida presa na garrafa a boiar no mar.

considera-te livre e derrubada tua ilusão!
num outro quadro em que fites o olhar,
te será o mesmo oceano e bem sentir,
e a temperatura in_terna  há de te subir;

como um retrato que eu olhe bem aqui,
e imagine que és tu a me tocar e sorrir,
a quem não conheço o rosto nem feições,
nem do corpo, a silhueta ou imperfeições.

*Imagem Google

sábado, 25 de janeiro de 2014

Jazigo









by Betha Mendonça

Não há mentira ou verdade nesse mundo,
Morada da incerteza e árvore de ar e fogo,
De virtudes e pecados no mesmo jogo,
A dançar rei e rainha em campo rotundo.

Meu, o roçar das nossas asas foi prólogo,
De voo belo, altaneiro e mui profundo,
Até a lâmina da realidade em desafogo,
Derrubar-me das nuvens num segundo.

Ferida de morte e segura por vento oriundo,
Do clamor dos teus olhos e versos em rogo,
Vago no teu espaço como fantasma imundo.

Já morri e meu jazigo é o mar onde afogo,
E escrevo com espuma das ondas o epílogo:
- Jaz aqui a mulher de um amor infecundo.

*Imagem Google


domingo, 19 de janeiro de 2014

Senhora do Poema











by Betha Mendonça

Do poema faça a candeia,
Para iluminar a escuridão,
Ó, doce senhora da lua cheia,
Dona da mais negra solidão!

Com fios de puro algodão,
Orne verso e rima em teia,
Do poema faça a candeia,
Para iluminar a escuridão!

Ame e através de cada veia,
Retire do peito a escravidão,
Com semente, barro e areia,
Do universo em sua vastidão,
Do poema faça a candeia...

*Imagem tumblr