segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Passos

by Betha M. Costa

ah, passos...
promesseiros sem fé 
posseiros da planta do pé

presos ao cimento das horas 
nem o todo nem as sobras 

do que nunca foi e nem é...



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Divagações de uma Insana

by Betha Mendonça

Ela não mora mais aqui nesses olhos de jabuticabas maduras devoradas pelo tempo. Nas plumagens de asas ressecadas e ralas, nas gulas controladas, no rosto da lua cheia a sorrir. Não, ela não mora mais aqui!

Adoeceu de doença da cegueira, ao confiar os passos ao parceiro de uma dança feita de nuvem. Teve a voz tragada pelo deserto do silencio, a dizimar pouco a pouco as searas frutíferas e ruidosas do seu ser.

Não, não! Ela encolheu feito uma reta, que de tão encolhida virou um ponto, não se sabe se a seguir ou final.

E por não mais morar aqui, ela cortou as mãos para não acenar mais um adeus.



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Ainda olho...


by Betha M. costa

vejo-te a pena esmurrar.
desejo, febre, mentira...
soberba, orgulho, ira...
um louco para si a berrar:

sou eu, cá e lá!
fala estátua de sal!
flui fonte do mal!
tenho sede de beber de ti!

largar o palco com tudo:
fábulas e reinado sem rei.
olhar que assiste mudo,
à opera dum sentir sem lei.

e a ferir as retinas,
esses olhos de boiuna,
ainda te (per)seguem.

* de Poemas para Ulisses

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Smartphone












by Betha M. Costa

Cheguei na loja. O funcionário atrás do balcão estava ao smartphone. Olhos hipnotizados e dedos tão rápidos  no teclado quanto um virtuose de piano. Cumprimentei:
- Boa tarde!
- Boa tarde! O que a senhora deseja?
- Ah! Eu aguardo o senhor desocupar aí do celular!
- Não! Pode falar! Não tem problema!
- Então... Eu quero ver modelos de copos para personalizar e distribuir de brinde na colação do meu filho...
- Estão todos ali naquelas prateleiras a direita! Apontou o homem com o queixo, sem tirar olhos e dedos do smarth. Não crendo no que acontecia, eu prossegui para  saber até onde ia aquele personagem inacreditável:
- Ei! Os copos são muito legais! Têm cores e formatos diversos...
- Ééééé... Respondeu a falar para dentro de si mesmo o sujeito, sem mexer um músculo.
- Olha! Até cheiros diferentes!
- Ééééé...
Eu fiquei zangada com o despreparo do camarada que demonstrava nem ouvir o que eu dizia, e, não dar a menor bola para minha demanda. Resolvi apelar para testar:
- Tem uns com cheiro de xixi de neném, outros cor de diarreia, outros até lembram o perfume de cravos de defuntos e mofo, né?
- Ééééé... Assentiu o patetão. Boquiaberta eu me segurei e prossegui:
- Quero cem litros dessas rosas vermelhas do tipo conto de fadas! Mas, com cheiro de dentes podres... Pode ser?
- Anhan! Pode! Pode! Anote tudo nesse bloco aqui no balcão!
- Ih! Esqueci de trazer o logo. Posso mandar por telepatia para o senhor?
- Poooode! E desgrudando uma dos mãos do celu, a outra e os olhos ainda lá; ele me passou um cartãozinho com os dados da empresa.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Do mar ao rio











by Betha M. Costa

não sobra mais amanhã, 
no mar hoje feito rio,
aonde canta a cunhã,
onde morreu o desvario...

nas noites e dias de frio,
foi santa e deusa pagã.
da vela, a cera e o pavio,
a iluminar seu mor fã.

de diva cruel sem elã,
lança-se em fé e delírio, 
ao alienista e seu divã.

das tintas na pele ao afã,
ao despertar pela manhã,
todo um mar é agora rio!

Imagem do googele

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FIB


by Betha M. Costa

X

O
Fio
Tecido
Ponto a pranto
Em teias coloridas
É caleidoscópio de mim

XI

Leve
Ao
Caminhar
Na Alma e pele
O amor feito sol
E não sofra nos dias sombrios...


domingo, 23 de novembro de 2014

Ao mar o que é de mar












by Betha M. Costa

ora não existe mais nenhuma letra
nos olhos que devassavam ar sobre ar
e viam o que há chão abaixo do chão
em nascentes d’água pura a rebentar

nem toada das tardes mais penetra
aos ouvidos em morte de escutar
que percebiam do estrondo do trovão
ao som da lágrima na pele a roçar

o olfato afetivo em efetiva anosmia
boca sem nada aclamar nem reclamar
na língua - passada a dor e a comichão -
um sabor mui salino para tampouco mar...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Atrás do Espelho












by Betha M. Costa

Muitas vezes eu adormeci em calma sobre um rio de lágrimas. Despertei com as mãos envoltas nas dores mais antigas e passei o dia com o olhar coberto de risos.

Por vezes ocultei a melancolia atrás do espelho do banheiro. Prendi ao guarda-roupa perfumado com cheiro do Pará uma ou duas esperanças ressecadas.

As tristezas cerzidas por grosserias, desrespeitos e achincalhes gratuitos, criaram teias de gelo nas minhas cordas vocais. Se pagas, elas me fariam mulher rica em adjetivos lançados ao rosto no propósito de machucar o âmago...

O silêncio tornou-se a minha resposta, pois perdi a noção do diálogo. Não tenho gosto em degelar palavras a quem não tem o interesse de bebê-las.

Muda. Comunico-me somente através do olhar com quem seja capaz e/ou sinta vontade de decifrá-lo.

domingo, 28 de setembro de 2014

Desenho












by Betha M. Costa

Tenho vincado e doem-me ao rosto as pautas de ir e vir, esse sair e voltar a mim. A pagar e apagar, acender e ascender às quimeras presas às tramas das letras. De delinear em riscas e sombras uma história de enredo patético e fundo poético: sopro de gangorra em vai e vem.

Assim criei-te com lápis número dois em papel sulfite kojo. Caída n’água à folha, o borrado revelou ser o lado que não fiz ser aquele que te diz.

Esfera divida ao meio, aqui ou lá, eu posso guardar meu invento, ou deitá-lo em oferenda aos deuses da destruição num barco em chamas, e, cedo ou tarde a maré ou vento o apagará...

*Imagem mangá

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Feito Oração









by Betha M. Costa

Aonde a vista achava-se sob tua mão,
Era uma benção que me sobrevinha,
O deslocamento de uma avezinha,
Ou voz feminina a alar-te a unção.

Eras o traço invisível no desenho,
A viajar-me em curvas de ser feliz,
Dentro do altar de sonhos que te fiz,
Hora por dentro dum credo ferrenho.

Ora no centro do olhar inda tenho,
Guardado o mistério de tal empenho,
Teu espírito e corpo em adoração.

Nos Salmos diários de saudades venho,
Cantos e passos a tua devoção,
Guardar na tez teu nome em oração.

*Desconheço autoria de imagem (Google)