segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ilha de Gelo


por Betha Mendonça

cruzei o mar dos meus sonhos
nas ondas dos teus cabelos
a afagar-te e afogar-me
n’águas salinas d’amores

naveguei e naufraguei
entre teus indicadores
a apontar-me outro nome

por inveja e desgosto
isolei-me numa ilha
até encobrir-me seu gelo

*Poemas para Ulisses

sábado, 10 de junho de 2017

Poemas de Ninar

por Betha Mendonça

teus versos
antigas canções

na noite
embalam-me o sono

redes
de poemas de en_cantar


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Depois

por Betha Mendonça

depois dela e dele
não há depois

silencio de morte
cala aos ouvidos
contas do rosário
colorem preces ao chão

não há mais ela nem ele
nem velas nos altares
derruídos em oferendas
e quebras de promessas

não há suplica nem assunção
nem mais bate um coração

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Passos

by Betha M. Costa

ah, passos...
promesseiros sem fé 
posseiros da planta do pé

presos ao cimento das horas 
nem o todo nem as sobras 

do que nunca foi e nem é...



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Divagações de uma Insana

by Betha Mendonça

Ela não mora mais aqui nesses olhos de jabuticabas maduras devoradas pelo tempo. Nas plumagens de asas ressecadas e ralas, nas gulas controladas, no rosto da lua cheia a sorrir. Não, ela não mora mais aqui!

Adoeceu de doença da cegueira, ao confiar os passos ao parceiro de uma dança feita de nuvem. Teve a voz tragada pelo deserto do silencio, a dizimar pouco a pouco as searas frutíferas e ruidosas do seu ser.

Não, não! Ela encolheu feito uma reta, que de tão encolhida virou um ponto, não se sabe se a seguir ou final.

E por não mais morar aqui, ela cortou as mãos para não acenar mais um adeus.



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Ainda olho...


by Betha M. costa

vejo-te a pena esmurrar.
desejo, febre, mentira...
soberba, orgulho, ira...
um louco para si a berrar:

sou eu, cá e lá!
fala estátua de sal!
flui fonte do mal!
tenho sede de beber de ti!

largar o palco com tudo:
fábulas e reinado sem rei.
olhar que assiste mudo,
à opera dum sentir sem lei.

e a ferir as retinas,
esses olhos de boiuna,
ainda te (per)seguem.

* de Poemas para Ulisses

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Smartphone












by Betha M. Costa

Cheguei na loja. O funcionário atrás do balcão estava ao smartphone. Olhos hipnotizados e dedos tão rápidos  no teclado quanto um virtuose de piano. Cumprimentei:
- Boa tarde!
- Boa tarde! O que a senhora deseja?
- Ah! Eu aguardo o senhor desocupar aí do celular!
- Não! Pode falar! Não tem problema!
- Então... Eu quero ver modelos de copos para personalizar e distribuir de brinde na colação do meu filho...
- Estão todos ali naquelas prateleiras a direita! Apontou o homem com o queixo, sem tirar olhos e dedos do smarth. Não crendo no que acontecia, eu prossegui para  saber até onde ia aquele personagem inacreditável:
- Ei! Os copos são muito legais! Têm cores e formatos diversos...
- Ééééé... Respondeu a falar para dentro de si mesmo o sujeito, sem mexer um músculo.
- Olha! Até cheiros diferentes!
- Ééééé...
Eu fiquei zangada com o despreparo do camarada que demonstrava nem ouvir o que eu dizia, e, não dar a menor bola para minha demanda. Resolvi apelar para testar:
- Tem uns com cheiro de xixi de neném, outros cor de diarreia, outros até lembram o perfume de cravos de defuntos e mofo, né?
- Ééééé... Assentiu o patetão. Boquiaberta eu me segurei e prossegui:
- Quero cem litros dessas rosas vermelhas do tipo conto de fadas! Mas, com cheiro de dentes podres... Pode ser?
- Anhan! Pode! Pode! Anote tudo nesse bloco aqui no balcão!
- Ih! Esqueci de trazer o logo. Posso mandar por telepatia para o senhor?
- Poooode! E desgrudando uma dos mãos do celu, a outra e os olhos ainda lá; ele me passou um cartãozinho com os dados da empresa.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Do mar ao rio











by Betha M. Costa

não sobra mais amanhã, 
no mar hoje feito rio,
aonde canta a cunhã,
onde morreu o desvario...

nas noites e dias de frio,
foi santa e deusa pagã.
da vela, a cera e o pavio,
a iluminar seu mor fã.

de diva cruel sem elã,
lança-se em fé e delírio, 
ao alienista e seu divã.

das tintas na pele ao afã,
ao despertar pela manhã,
todo um mar é agora rio!

Imagem do googele

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FIB


by Betha M. Costa

X

O
Fio
Tecido
Ponto a pranto
Em teias coloridas
É caleidoscópio de mim

XI

Leve
Ao
Caminhar
Na Alma e pele
O amor feito sol
E não sofra nos dias sombrios...


domingo, 23 de novembro de 2014

Ao mar o que é de mar












by Betha M. Costa

ora não existe mais nenhuma letra
nos olhos que devassavam ar sobre ar
e viam o que há chão abaixo do chão
em nascentes d’água pura a rebentar

nem toada das tardes mais penetra
aos ouvidos em morte de escutar
que percebiam do estrondo do trovão
ao som da lágrima na pele a roçar

o olfato afetivo em efetiva anosmia
boca sem nada aclamar nem reclamar
na língua - passada a dor e a comichão -
um sabor mui salino para tampouco mar...